Nesse contexto de disputas ideológicas acirradas, a iniciativa do poeta e historiador Pereira Reis Junior de erguer um monumento em homenagem a Maria Quitéria, heroína da Independência (CALMON, 1952, p. 1), poderia sinalizar um gesto simbólico de conciliação nacional e de afirmação da identidade institucional das Forças Armadas, também afetadas, em seu interior, pela cizânia política. Após descobrir a certidão de óbito da combatente baiana (CORREIO DA MANHÃ, 1953, p. 2), o escritor propôs ao novo ministro da guerra, o general Ciro do Espírito Santo Cardoso, uma celebração pública oficial, recebendo então a seguinte resposta: “determinarei que em todas as casernas do Brasil seja inaugurado, por ocasião do centenário, em lugar de destaque, o retrato da grande heroína brasileira Maria Quitéria de Jesus” (CORREIO DA MANHÃ, 1952, p. 7). Mais que uma estátua no Largo da Soledade, em Salvador, organizou-se na verdade uma imensa celebração de alcance nacional, começando pela inauguração, em 19 de agosto de 1953, do retrato de Maria Quitéria no salão nobre do Palácio Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, com a presença do general Ciro Cardoso, do ministro da educação Ernesto Simões Filho e de várias outras autoridades importantes. No dia 21 de agosto, a Câmara dos Deputados, no Palácio Tiradentes, também prestou suas homenagens, dentre várias outras relevantes que aconteceram em diferentes partes do país. Além disso, o Ministério da Viação pôs em circulação em todo o território um selo comemorativo em monocromia azul e um envelope com o busto da personagem (GOMES, 2022, p. 217-230), enquanto a Sociedade Numismática da Bahia encomendava a cunhagem de uma medalha de bronze para distribuição entre os associados [Figura 6] (ESTADO DA BAHIA, 1953a, p. 8).
Em Salvador, as festividades do centenário da morte de Maria Quitéria foram marcadas por sucessivos discursos patrióticos em seu louvor, começando às nove horas da manhã, com uma missa celebrada na Igreja da Soledade, seguida da inauguração do monumento às dez e de um desfile militar às onze (A TARDE, 1953b, p. 2, DIARIO DA BAHIA, 1953, p. 8). Discursaram uma aluna do Colégio da Soledade, uma professora da Escola Maria Quitéria, o próprio Pereira Reis Junior, que no mesmo ano publicou uma biografia da combatente, o governador da Bahia Régis Pacheco e o ministro Ciro Cardoso. As solenidades se estenderam até a noite, com uma sessão magna no Instituto Histórico e Geográfico da Bahia às 21 horas (ESTADO DA BAHIA, 1953b, p. 8). Vê-se que a celebração mobilizou os poderes civis e militares conjuntamente.